Houve uma altura da minha vida, quando entrei para a
universidade que de volta e meia andava meio macambúzio e triste, na altura
dizia que a razão para isso acontecer era sentir-me inútil para a sociedade. Desde
então já passaram alguns anos e já lá vai mesmo muito tempo desde que me senti
dessa maneira pela última vez.
Depois de todo o tempo que passou tenho grandes dúvidas se o
problema era a minha inutilidade social, provavelmente essa era apenas a minha
explicação racional para aquele sentimento estranho e desajustado da realidade.
Nessa altura a minha vida era fantástica, não que não o seja
agora, mas era diferente ainda vivia na ilusão que tudo era possível, era como
viver num conto de fadas do qual era o herói. Se alguém olhasse de fora para a
minha vida, naquela altura, veria algo normal, um dia-a-dia comum para alguém
que frequentava um curso superior mas que não ia muitas vezes à universidade. Na
altura aquilo que realmente queria não era estudar, achava o curso aborrecido e
inútil e o meu grande desejo era VIVER, queria meter a minha vida em fast-forward,
passar à fase seguinte, era como estar a ler um daqueles livros que nos deixam
de tal forma entusiasmados que queremos devorar as páginas para descobrirmos o
que vai acontecer a seguir.
Uma das minhas explicações para aquele sentimento
desagradável era a forma como lidava com o sentimento de culpa por não viver a
minha vida segundo as expectativas da sociedade. Para mim aquilo que dava
sentido à minha vida era claro, no entanto não fui capaz de me blindar daquilo
que a sociedade de uma forma lata e as pessoas que me rodeavam de uma forma
mais restrita acreditavam que deveria ser a minha forma de viver a vida.
Dizer que devemos viver a nossa própria vida, sem ligarmos
ao que os outros dizem é fácil, agora conseguir realmente fazê-lo é algo
completamente diferente. Tentamos corresponder a expectativas e deixamos as
nossas inseguranças alimentarem-se no péssimo e nas dúvidas levantadas pelos
outros.
Eu se pudesse voltar atrás com o conhecimento que tenho hoje
faria várias coisas de forma diferente, não quer dizer que viva preso em ressentimentos
a pensar o que é que a minha vida poderia ter sido, mas reconheço que cometi
alguns erros e caso tivesse a oportunidade não hesitaria em tentar corrigi-los.
Passei a minha vida à procura do sentido para ela, utilizava
o meu presente e o meu passado para definir aquilo que podia esperar para o
futuro e tomava as minhas decisões de forma a aumentar as possibilidades de
futuros positivos.
Agora percebo o quão errada era a minha abordagem, em vez de
procurar o sentido para a minha vida, aquilo que deveria ter feito era ter
criado o sentido para a minha vida e aqui está a chave da felicidade.
É fácil cairmos na armadilha que para ser felizes, para que as
nossas vidas tenham sentido, é preciso satisfazermos um conjunto de critérios
mas na verdade existem tantas formas de dar sentido à vida como seres existem
neste planeta. Percebermos isto ajuda-nos não só a viver melhor, mas também as
respeitarmos e a compreendermos as opções de vida das outras pessoas.
O sentido da vida de alguém pode estar em criar arte,
aumentar o conhecimento, ter uma carreira profissional fantástica, ter a
coragem de desafiar o medo, explorar os recantos mais recônditos da terra,
descobrir mundos narrados em livros, ajudar os outros, ser-se o melhor num
determinado desporto… a lista é interminável, a parte importante é que nenhuma
forma de dar sentido à vida é melhor que a outra, apenas temos de escolher a
nossa, é claro que existem algumas mais nobres que outras (tentem não dar
sentido à vossa vida destruindo o sentido da vida de outros, por exemplo).
O melhor é mesmo escolhermos qual o sentido que queremos
para a nossa vida, em vez de andarmos a ver atrás das esquinas se ele anda por
lá escondido.
Podemos escolher o que nos apetecer. Ao criarmos o sentido da
nossa vida, estamos a aproximarmo-nos perigosamente da felicidade e se não
tivermos cuidado, vamos mesmo acabar por ser felizes!
Em vez de procurarmos o sentido para a nossa vida, vamos mas
é criá-lo!
